O tema da
Família está por toda a Bíblia.
Às vezes vemos a
família em uma cena simples, corriqueira, que poderia servir de inspiração para
um artista, como a que retrata dois irmãos ajudando o pai a consertar as redes
de pesca em um barco nas praias da Galiléia.
Outras cenas são
fortes, comoventes, tão dramáticas que parecem ter saído de uma peça
shakespeareana; como de um moço que é levado cativo para o Egito, e depois de
muitos anos se encontra e se revela aos seus irmãos – os mesmos que o haviam
vendido como escravo.
Há também cenas
intrigantes. Por vezes a Bíblia nos deixa ver “por trás das cortinas” coisas
que muitas famílias fariam de tudo para esconder. Leia o livro de 2 Samuel, a
partir do capítulo 13, e você vai ver o que é uma família com sérios
problemas...
Mesmo quando a
ação de alguns personagens seja um total desserviço ao bom senso, e apesar de
que na maior parte das vezes não sejamos informados do porquê de tudo aquilo,
pelas entrelinhas percebemos que Deus detém todo o controle da situação.
Ele estava lá,
mesmo quando as pessoas erravam, e erravam muito. Talvez isso sirva de consolo
para muitos pais de família que sentem ter falhado com os filhos, ou de esposos
e esposas que sintam ter falhado com o conjuge.
Eu poderia citar
muitos exemplos aqui, mas me chama a atenção um em particular – a mulher samaritana. Sei que este
capítulo da Bíblia já rendeu uma quantidade enorme de boas pregações, mas há
algo que dificilmente se consegue captar por meio de um sermão: o sentimento de
alívio que aquela mulher deve ter sentido depois de seu encontro com Jesus.
Afinal de contas ela, justo ela, que
havia saído de cinco casamentos fracassados, se tornava a primeira pessoa de
seu povo a ter um encontro com Jesus!
* * *
Tanto o Antigo
como o Novo Testamento usam diversas figuras tiradas da família para descrever
o relacionamento de Deus com o seu povo. Para não nos determos muito no
assunto, vou mencionar somente uma imagem de família aqui, a que compara o
casamento à Igreja de Cristo.
Quando Paulo
deseja orientar os casais da igreja de Éfeso, ele não encontra maior exemplo
que no relacionamento entre Cristo e a sua “Noiva”. As mulheres devem se
sujeitar aos seus maridos “como ao Senhor”, ele afirma, porque no casamento o
marido possui o mesmo papel que Cristo em relação a sua Igreja. E se é assim,
Paulo continua, “maridos, amem as suas esposas como Cristo amou a Igreja”. E
sabemos que o amor a que ele está se referindo é o mesmo tipo de amor que levou
o Nosso Senhor a uma Cruz!
Existe amor
maior que este? E conclui “assim devem os maridos amar as suas próprias
mulheres...”.
Mas Paulo não é
o único a fazer a analogia entre a Família e a Igreja.
O primeiro
tratamento registrado nas Escrituras entre os membros da Igreja, desde a sua
fundação, é um título tirada da família – Irmão (veja
Atos 1.16).
E foi este o
primeiro título que Paulo recebeu antes de se tornar um apóstolo, de um
discípulo chamado Ananias: “Irmão Saulo, o Senhor Jesus, que
te apareceu no caminho por onde vinhas, me enviou, para que tornes a ver e
sejas cheio do Espírito Santo” (Atos 9:17).
Na Igreja somos
irmãos porque todos nós fazemos parte da mesma família – a Família de Deus – a qual Jesus é o primogênito (Hebreus 2.17).
Por meio dele,
agora também somos filhos de Deus, e, “se nós somos filhos, somos logo
herdeiros também, herdeiros de Deus, e coherdeiros de Cristo” (Rm 8.17).
Nós somos a sua
família. Foi Ele mesmo quem afirmou que “qualquer que fizer a vontade de Deus,
esse é meu irmão, e minha irmã, e minha mãe” (Mc 3.35).
* * *
Além dessa, Jesus
também teve uma família humana, biológica, com pais humanos, José e Maria; e
irmãos e irmãs (Mt 12.46).
O relato do
capítulo dois de Mateus é essencialmente importante neste sentido, porque
mostra o tamanho do impacto que o nascimento de Jesus teve no destino desta
família. Seus pais, com Jesus sendo ainda um bebê, tiveram que fugir às pressas
para o Egito, no meio da noite, por causa da ordem de Herodes para que fossem
mortos todos os meninos de Belém, de dois anos para baixo (Mateus 2.13-16).
Entendemos que a
mãe de Jesus, em algum momento, havia se tornado viúva, já que o nome de José
não é mais mencionado quando Jesus inicia seu ministério público. E quem
você acha que cuidava de Maria?
Observe o
seguinte:
Jesus sempre
teve uma fonte de renda. Antes de iniciar seu ministério público, ele havia
sido carpinteiro, como os habitantes de Nazaré lembraram (Marcos 6.3). E durante
o seu ministério, Jesus recebeu apoio financeiro de pessoas que creram nele,
dentre as quais algumas mulheres ilustres (Lucas 8.3).
As irmãs de
Jesus já eram casadas e moravam em Nazaré (Marcos 6.3), mas Maria acompanhou
Jesus quando Ele se mudou para Cafarnaum (João 2.12).
Não é difícil de
deduzir que, dentro das circunstâncias da época, Jesus se tornara o cabeça e o provedor
de sua casa desde então, e que tenha continuado assim até mesmo durante o tempo
em que exercia o seu ministério.
Entendemos que
Jesus cuidava de sua mãe. Talvez possamos encontrar a maior de todas as
evidências quanto a isso quando Jesus estava na Cruz, em uma de suas últimas
palavras antes de morrer.
Maria, mãe de
Jesus, se encontrava aos pés da cruz, juntamente com mais três mulheres e o
discípulo João.
Sensibilizado
com a dor da sua mãe pela perda do filho, Ele próprio, bem como de sua
necessidade de um lar, diz a ela “mulher, eis aí o teu filho”, se referindo ao
apóstolo João.
Logo em seguida,
tornando para João, emenda “eis aí tua mãe”!
Que linda
preocupação teve o Filho de Deus para com os seus, mesmo nesta hora, na cruz,
suportando os piores sofrimentos!
Que lição de altruísmo!
* * *
Um conceito
familiar importante está contido nos ensinos de Jesus, e, ao que tudo indica,
estes permearam seu ministério desde o seu início.
Jesus ensina, de
forma totalmente original e radical para o seu tempo, que Deus é “Pai”.
No Sermão da
Montanha Jesus fala que Deus é o “vosso Pai celestial”. Na ocasião chama Deus
de Pai nada menos do que quinze vezes.
A oração a qual
ensina seus discípulos começa com o vocativo “Pai Nosso”.
Somos ensinados,
primeiramente, a santificar o Nome do Pai,
e em seguida a pedir pela vinda Seu Reino,
e pelo cumprimento da Sua Vontade.
A oração que
Jesus ensinou começa, portanto, com o crente olhando para os interesses do
próprio Deus, o Pai.
O cuidado de
Deus pelas nossas vidas é descrito em termos paternais como, “olhai para as
aves do céu, que nem semeiam, nem segam, nem ajuntam em celeiros; e vosso Pai
celestial as alimenta. Não tendes vós muito mais valor do que elas?”, ou,
“decerto vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas estas coisas”
(Mateus 6.26,32).
A mesma ideia de
filiação aparece na mais famosa de todas as suas parábolas: “O Filho Pródigo”.
Nesta parábola Jesus usa três personagens tirados de uma
família, um pai amoroso, um filho que dá tudo de si na fazenda do pai, e o seu
irmão mais novo que era um completo desmiolado, para construir uma riquíssima
estória a respeito do amor de Deus pelos que se encontram perdidos e distantes.
Se em outras
passagens da Bíblia, somos informados a respeito da grandeza de Deus, da sua
fidelidade e da sua santidade, nesta vemos o coração de Deus: um Pai amoroso esperando ansiosamente pelo retorno
de seu filho! Não por acaso, esta é a mais longa de todas as parábolas de
Jesus.
* * *
No entanto, é no
seu relacionamento com o Pai que temos o maior de todos os exemplos do que é a
Família no conceito original de Deus.
Para Jesus, Deus
é um Pai que merece toda a honra e adoração, como vimos na oração do Pai Nosso,
e em suas próprias orações. Temos um exemplo de uma oração completa de Jesus no
evangelho de João, que costumamos chamar de “oração sacerdotal” (Leia João 17).
O termo, “Abba”
(Pai), usado em suas orações, deve ter chamado muito a atenção dos seus
discípulos, já que a palavra em sua pronuncia original é transcrita em mais de
um lugar no Novo Testamento (Marcos 14.36; Romanos 8.15; e Gálatas 4.6).
A relação entre
o Pai e o Filho é especial e única na Bíblia. Por assim dizer, agora nós somos
filhos de Deus por meio de Cristo; porém Jesus é o Unigênito Filho de Deus – sentido
no qual ninguém mais é.
Para Deus, Jesus é “o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mateus
3.17; Marcos 1.11) e para Jesus, “ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e
ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar”
(Mateus 11.27).
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