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O SALMO 23

Escrevi está mensagem para o nosso IV EBOM (Escola Bíblia de Obreiros e Membros), que aconteceu entre os dias 12 a 15 de Junho de 2013. Esta foi a Lição de número 4:

O Salmo 23


SENHOR é o meu Pastor,
E nada me faltará;
Deitar-me faz em verdes pastos,
Guia-me mansamente a águas tranquilas,
Refrigera minha alma;
Guia-me pelas veredas da justiça
por amor do seu Nome;
Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte,
Não temerei mal algum
porque Tu estás comigo;
A tua vara e o teu cajado me consolam,
Preparas-me uma mesa perante mim
 na presença dos meus inimigos;
Unges a minha cabeça com óleo,
E o meu cálice transborda;
Certamente que a bondade e a misericórdia
me seguirão todos os dias da minha vida;
E habitarei na Casa do SENHOR por longos dias



O Senhor é meu Pastor

Muitas vezes na Bíblia o Senhor é descrito como o Pastor do seu povo.
Ao abençoar José, Jacó diz que Deus havia sido seu pastor durante toda sua jornada (Gn 48.15).

O cantor Asaf chama Deus de “Pastor de Israel” no salmo 80.

Isaías fala do terno amor de Deus, que “como Pastor apascentará seu rebanho, entre os seus braços recolherá os cordeirinhos, e os levará no seu regaço; as que amamentam, ele as guiará mansamente” (Is 40.11).

No livro do profeta Jeremias, Deus é o Pastor que um dia reunirá seu rebanho que estava disperso (Jr 31.10).

E em Ezequiel, usando a mesma metáfora, Deus diz que “eis que Eu, Eu mesmo, procurarei as minhas ovelhas, e as buscarei” (Ez 34.11).

Quando o povo israelita se afasta dos caminhos de Deus, Ele o compara a “ovelhas que não têm pastor” (1 Rs 22.17). Em outra passagem, Deus culpa os líderes da nação pelo fracasso espiritual do povo, e diz que estavam “espalhadas como ovelhas” por não haver pastores que cuidassem delas (Ez 34.1-10).

No Novo Testamento Jesus é o Pastor das ovelhas.

Em seu olhar de misericórdia, Ele vê e se compadece da multidão porque “andavam desgarradas e errantes, como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9.36).

No evangelho de João Ele testifica acerca de si mesmo – “Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá a vida pelas ovelhas” (Jo 10.11).

No evangelho de Lucas Ele é o pastor que deixa as noventa e nove ovelhas no redil e sai em busca da perdida até encontra-la (Lc 15.4-7).

Jesus é chamado ainda de “Grande Pastor das ovelhas” em Hb 13.20; “Pastor e Bispo” das nossas almas em 1 Pd 2.25; e “Sumo Pastor” em 1Pd 5.4.

A ideia de Deus como pastor serve para ressaltar algumas de suas qualidades imutáveis como FidelidadeFirmezaProteçãoTerno Amor e Cuidado (Gn 48.15; 49.24; Sl 23.4; Jo 10.11; Is 40.11; Sl 23; Jo 10.1-12).

Meu Pastor

Davi não o chama apenas de Pastor, mas de “meu Pastor”. Somente o crente salvo e regenerado pode usar a palavra “meu” em relação a Deus.
Ao longo dos séculos, homens e mulheres têm chamado este Deus de uma forma muito pessoal de “meu” Deus. Esta simples forma de se referir a Deus revela um lindo tipo de relação de intimidade que podemos ter com Ele.

Muitos hinos cantados em nossas igrejas possuem expressões como “Jesus meu salvador” ou “meu Senhor e Rei”, e assim por diante.

Quando Deus livra os israelitas dos exércitos de Faraó, Moisés e o povo cantam “O Senhor é a minha força, e o meu cântico; ele se tem tornado a minha salvação; é ele o meu Deus, portanto o louvarei; é o Deus de meu pai, por isso o exaltarei” (Ex 15.2).
Como Moisés e Davi, cada crente salvo pode chamar o Senhor de “meu Jesus” e dizer que “Ele morreu por mim na cruz”.

Deixe-me insistir um pouco mais neste ponto. Jesus é um salvador “pessoal”, e ele deseja manter uma relação íntima e pessoal com cada um dos Seus. É por isso que Ele diz “se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo” (Ap 3.20).

Nada me faltará

Muitos não têm entendido a profundidade destas palavras. Certa vez ouvi uma explicação que dizia que isto significa que nada, “inclusive lutas”, irá faltar na vida do crente.

Se bem que seja verdade que iremos passar por lutas nesta vida, o verdadeiro sentido da expressão “nada me faltará” está ligado aos versos seguintes do Salmo, que mostram Deus suprindoguiando e protegendo. Estas são as coisas que não podem faltar para uma ovelha.

Pode ser que Deus não nos dê tudo o que queremos, mas com certeza Ele nos dará tudo o que realmente precisamos.

Estas mesmas palavras têm trazido conforto aquele que atravessa dificuldades financeiras, como, por exemplo, em uma situação de desemprego.

Quantos pais de família receberam forças e alento para continuarem crendo, ao ouvirem “Deus é meu Pastor, e nada me faltará”! Muitos são os testemunhos nas igrejas de pessoas que passaram por longos períodos nesta fase ruim, sem que nada lhes faltasse em casa.

Mas há ainda algo mais profundo em “nada me faltará”. Com certeza, o salmista se refere não somente às coisas materiais, mas a presença de Deus em sua vida.

Nada nos falta quando sabemos que o Senhor é tudo que temos. Ele é o nosso mais precioso bem.

E não somente porque Ele irá nos prover, mas porque a presença Dele já é mais do que qualquer provisão.

Num dos mais lindos cânticos que há na Bíblia, o profeta diz:

Ainda que a figueira não floresça,
nem haja fruto nas vides;
Ainda que falhe o produto da oliveira,
e os campos não produzam mantimento;
Ainda que o rebanho seja exterminado da malhada
e nos currais não haja gado;
Todavia eu me alegrarei no Senhor,
exultarei no Deus da minha salvação.
(Hc 3.17-18)

Deitar-me faz em verdes pastos

Verdes pastos são pastos frescos, pastos vivos. A expressão fala da provisão de Deus, que é sempre nova e fresca. Pastos verdejantes são bem diferentes de pastos secos pelo sol e pela estiagem. A provisão de Deus para as nossas vidas é algo que se renova constantemente, de forma que somos não apenas supridos, mas supridos de uma forma boa e agradável.

Mas o ponto que chama a atenção aqui é que Ele nos faz deitar nestes pastos – “deitar-me faz em verdes pastos”.

Deus deseja que repousemos em sua provisão, como ato de fé.

Creio que o sentido aqui seja de descanso, ou repouso, no nosso interior, como paz espiritual. Deus sabe que precisamos disto muitas vezes, principalmente quando estamos atravessando lutas muito difíceis.

Somente a alma cansada que finalmente encontrou descanso em Deus pode dizer “repousar-me faz”.

Não são as orações intensas que nos cansam, mas as circunstâncias adversas da vida. Se nestas temos fadiga para a alma, nas orações encontramos descanso.

Não poucas vezes nos cansamos, como os discípulos de Jesus, que remavam na alta madrugada, lutando contra as ondas e o vento. Eles só encontraram descanso quando o Mestre finalmente vai ao encontro deles e lhes diz “tende bom ânimo, sou Eu, não temais” (Mc 6.48-51).

Paulo ensina em sua epístola aos Filipenses que a primeira resposta que Deus dá às orações é “a paz de Deus, que excede todo o nosso entendimento” (leia Fl 4.6-7).

Guia-me mansamente às águas tranquilas. Refrigera a minha alma.

Esta passagem está em paralelo com a anterior – “deitar-me faz em verdes pastos”. Ambas se referem à provisão de Deus, e à paz de espírito.

Como bem observa Spurgeon, guiar não é o mesmo que direcionar: Ele não nos direciona. Moisés nos direciona por meio da Lei, mas Jesus nos guia por seu exemplo, e pelo gentil esboço do seu amor.

Somos guiados mansamente por Aquele que vai a nossa frente mostrando o caminho; e se há algo que nos constrange a segui-lo, é unicamente o Seu amor (2Co 5.14).

Ele espera que respondamos prontamente quando nos diz – segue após mim. E segui-lo será um processo que irá durar toda a extensão de nossas vidas (Mt 10.38).

As “águas tranquilas” para onde Ele nos guia estão em clara oposição às águas turbulentas desta vida.

Mas qual é, exatamente, o sentido de “água” aqui?

De todas as palavras da Bíblia que são usadas como símbolos, água é a que possui o maior número de significados.

Daniel nos fala do “mar” agitado dos povos, de onde saíam os animais, isto é, os impérios dominadores (Dn 7.2-3); e o salmista fala das “profundezas das águas” cujas correntes queriam submergi-lo (Sl 69.2).

As águas na Bíblia, dependendo do contexto, podem significar coisas diferentes como purificação, batismo, tribulações, sepultamento, as nações, etc.

Em algumas passagens – “água(s)” – representa o Espírito Santo (leia Jo 7.38-39). E o mais importante suprimento de Deus para a vida do homem é o Seu Espírito.

Na verdade, nenhum ser humano se sentirá totalmente satisfeito ou completo nesta vida enquanto não beber da “água da vida” da qual Jesus falou – e esta água é o Espírito Santo.

No Salmo 23, porém, não temos como afirmar com certeza de que estas águas representam o Espírito Santo.

Seja como for, são águas tranquilas, isto é, aguas de repouso e conforto.  Deus sabe que precisamos de paz e repouso nesta vida, ainda que o nosso descanso final não seja aqui.
Por fim, a expressão, como está construída, indica ainda que as águas são o lugar de destino desta jornada. É para lá que Ele nos conduz.

É nessas águas que Deus “refrigera a minha alma”.

Embora a frase – “refrigera a minha alma” – possa ser traduzida de uma forma um pouco diferente, esta atual tradução faz bastante sentido, principalmente se levarmos em conta que Deus nos leva para águas tranquilas. Ora, águas tranquilas são, em sua essência, águas de refrigério.

A outra tradução possível é “restaura a minha alma”. Esta tradução é a preferida entra as Bíblias mais modernas (*).

Deus é um Deus de restauração. E porque sabe que o homem precisa ser restaurado, Ele incluiu no plano de salvação – libertação, cura física, cura interior e bênçãos.

Note que em todo o Salmo, o agente ativo é o próprio Deus. É Ele quem nos guia, que nos faz repousar e quem nos restaura.



(*) Embora pareça um tanto estranho que o mesmo texto possa ter mais de uma tradução, precisamos ter em mente que o hebraico antigo atendia as necessidades de uma sociedade mais simples que a nossa, e bem diferente em vários aspectos. Para os padrões modernos, seria considerada uma língua não muito precisa. Porém, isto não se constitui em desvantagem, mas em vantagem para o leitor da Bíblia, já que o sentido pode ser ampliado, sem que haja desvio da mensagem original. De uma forma ou de outra, foi esta língua que Deus escolheu para, primeiramente, falar com o homem.


Guia-me nas veredas da justiça por amor do Seu Nome

O anseio pela justiça de Deus está em toda a Bíblia.

Os homens que a escreveram oraram para que Deus os ajudasse a andar em Seus caminhos. Eles, como nós, ansiavam por uma vida mais perfeita e reta na presença de Deus.

Faze-me andar na vereda dos teus mandamentos,
Porque nela me comprazo
(Sl 119.35)

Acima de tudo é o próprio Deus que anseia que andemos em veredas de justiça, e é Ele, por meio de Seu Espírito, que põe este desejo dentro de nós.

Se há um ponto no qual a maioria de nós, os crentes, pode mostrar total incapacidade, é aqui – em andar em justiça e retidão.

E por sermos tão propensos ao erro, é que carecemos desta ajuda. É Deus quem nos guia pelas Suas veredas, porque jamais conseguiríamos fazer isso de nós mesmos.

Porque os caminhos do Senhor são retos,
E os justos andarão nele
(Os 14.9)
Que coisa sublime é saber que podemos contar com a graça Deus em nossas vidas nos ajudando a andar em Seus caminhos!

E Deus nos guia por estas veredas por amor do Seu Nome. É certo que Ele nos ama. Mas nos guia por causa do Seu Nome, porque os nossos propósitos muitas vezes murcham e desvanecem, mas o Nome de Deus permanece imutável e inabalável.

Brenenam, explica desta forma: “Deus me guia, não por causa do que eu sou, mas por causa do que Ele é”.

Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque Tu estás comigo.

Aquele que nos guiou pelas veredas da justiça nos guiará também pelo vale da sombra da morte.

É por causa deste verso, em especial, que o salmo 23 tem sido tão recitado em cultos fúnebres. A sombra da morte indica a proximidade desta.

A morte, para os que creem naquele que a venceu, é um vale a ser atravessado, e não o destino final.

Spurgeon faz este interessante comentário:

Alguém tem dito que quando há uma sombra deve existir alguma luz por perto, e há. A morte está do lado da estrada a qual nós atravessamos, e a luz do céu, iluminando-a, lança uma sombra em nosso caminho; vamos então nos regozijar de que haja uma luz além. Ninguém tem medo de uma sombra, porque uma sombra não pode impedir a caminhada de um homem, nem por um momento. A sombra de um cão não pode morder; a sombra de uma espada não pode matar; e a sombra da morte não pode nos destruir.
Aqui é preciso fazer uma observação. Davi não teme o vale da sombra da morte por um motivo apenas – porque Tu estás comigo. Aquele que não tem o Senhor ao seu lado, tem motivos de sobra para temer este vale.

A presença de Deus é exatamente o inverso do medo humano – Sou Eu, não temais (Jo 6.20) – porém isto só se aplica para quem tem Jesus.

Paulo diz aos filipenses que “para mim o viver é Cristo, e o morrer é lucro”. A lógica aqui é que a segunda afirmação está em dependência direta da primeira. Para aquele cujo viver é Cristo, a morte se torna em lucro.

A tua vara e o teu cajado me consolam

Vara é um instrumento de proteção e disciplina; e o cajado é o instrumento do pastor para manter a ovelha junto ao rebanho e ao mesmo tempo o símbolo de sua autoridade.
Guzik explica que apesar do texto usar duas palavras, pode ser que se trate de um único instrumento.

Seja como for, o pastor tem estas funções. Ele não apenas guia as ovelhas para os pastos e fontes de água, como também as protegedisciplina e as mantém no rebanho.

Primeiramente Deus nos protege. A vara serve para isso.

O anjo do Senhor acampa-se ao
redor dos que o temem, e os livra
(Sl 34.7)

Jesus diz que há o ladrão das ovelhas, como também o lobo (leia João cap. 10). Estas duas figuras servem para ilustrar os dois tipos de perigo que os crentes enfrentam.

ladrão é o próprio diabo que, se pudesse, faria as três coisas nas quais é especialista: roubarmatar e destruir.

E ele só não faz isto porque Jesus é o Pastor da igreja.

A segunda figura é a do lobo. O lobo também é o diabo, mas por meio dos seus agentes: falsos apóstolos, falsos profetas, falsos pastores, etc.
Jesus chama os falsos profetas de lobos que vêm disfarçados de ovelhas (Mt 7.15); e Paulo alerta os anciãos de Éfeso sobre os “lobos cruéis” que estavam para entrar naquela igreja após sua partida (At 20.29).

A ideia que o Novo Testamento nos dá acerca dos lobos é que eles se fazem passar por servos de Deus, e procuram se infiltrar nas igrejas de forma sorrateira e enganosa. Infelizmente não são poucos os crentes que se deixam levar pelos intentos destas pessoas malignas.

Muitos são os alertas da Bíblia com relação a este perigo.

Em segundo lugar, Deus nos disciplina. A vara serve para isso também.

Obviamente que Deus não irá usar a mesma vara sobre nós a qual Ele usa sobre o ladrão ou sobre o lobo.

A vara usada para afugentar o lobo está mais para um cassetete de madeira, enquanto a vara usada para as ovelhas é algo muito mais fino e leve.

O autor de Hebreus explica que a disciplina é algo que faz parte da nossa relação com Deus como filhos, e na qual todos têm sido feitos participantes (leia Hebreus 13.5-11).

Interessante que Davi diz que a vara o consola. Para o crente humilde e sincero, a disciplina, que no primeiro momento pode ser motivo de tristeza, acaba se tornando uma consolação. Na verdade, vemos que a disciplina é para o nosso próprio bem, pois no livra de um juízo futuro muito pior.

E em terceiro lugar Deus nos mantém no rebanho. É para isto que serve o cajado.
Alguns cajados possuem uma forma de semicírculo em uma das extremidades, e isto ajuda o pastor a puxar a ovelha.

Se uma ovelha cai em algum buraco, ou não consegue subir uma saliência do terreno, o pastor irá puxa-la para cima usando o cajado.

Mas nem todos os cajados possuem este formato. Alguns são somente encurvados na parte de cima, e outros, nem isso.

Independente da forma, o cajado ainda é o símbolo da autoridade do pastor. Um pastor sem o cajado é um pastor sem autoridade.

Jesus tem autoridade sobre as nossas vidas.

Ele nos diz as suas ovelhas ouvem a sua voz; que Ele as chama pelo nome e as guia; que Ele vai adiante delas e elas o seguem; e que conhece as suas ovelhas e delas é conhecido.

Observe que a autoridade de Jesus é uma autoridade mansa e gentil, de um Pastor que ama as ovelhas e as conduz de uma forma muito especial.

Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos

O salmo parece alterar a metáfora que estava sendo usada até então de Pastor das ovelhas para Anfitrião. Entretanto, as ideias estão em perfeita harmonia.
Não é estranho, dentro da linguagem bíblica, que se use em um mesmo texto mais de uma metáfora.

Dentro de tudo o que o salmo descreve acerca deste maravilhoso pastor, é perfeitamente coerente dizer que Ele ainda irá preparar uma mesa, como um anfitrião, que deseja honrar o seu convidado de uma forma diferenciada.

O salmo fala acerca “dos meus inimigos”.  É certo que o crente tem inimigos e, às vezes, muitos. Davi os teve em abundância – e Jesus ainda mais.

Mas neste salmo Davi não pede para Deus salvá-lo de seus inimigos, e também não os descreve sendo destruídos, como o faz em outras ocasiões. Ele apenas diz que eles estarão lá, vendo-o naquela mesa preparada por Deus.

Mas como será isso?

Não é preciso forçar muito para compreender o significado da passagem, porque o salmo está usando uma metáfora.
O crente um dia será honrado diante dos seus inimigos, e Deus pode fazer isso de diversas maneiras. O que importa saber é que, seja nesta vida ou no porvir, isto irá acontecer.

Mas é preciso que consideremos o fato de que muitas pessoas que agora são nossos inimigos um dia irão se converter e se sentarão à mesa conosco.
Trazer aqueles que agora são nossos inimigos para compartilharem conosco esta mesa de benção pode parecer uma ideia radical, mas é o que para mim melhor traduz o sentido da expressão “na presença dos meus inimigos”.

Unges a minha cabeça com óleo, e o meu cálice transborda

A unção com óleo representa Deus derramando do seu Espírito nas nossas vidas. No salmo 133 a união entre os irmãos está relacionada à unção com óleo sobre a cabeça de Arão. De fato, a união fraternal é uma forte evidência de que o Espírito Santo está atuando em uma Igreja.

Note que há uma sutil diferença desta benção em relação às anteriores. Todas são acompanhadas de uma qualidade especial, mas somente a unção é derramada de forma transbordante:

Os pastos são verdejantes;

As águas são tranquilas;

A segurança é total (não temerei mal algum);

A mesa é visível até pelos inimigos;

Mas somente a unção com óleo é transbordante.

Deus reservou a quantidade além de abundante em somente uma das bênçãos sobre as nossas vidas – o Espírito Santo!
Deixe-me enfatizar este ponto. O Espírito Santo é a maior riqueza que um crente em Jesus pode ter e Deus nos tem dado esta benção em uma medida muito mais além do que imaginamos.

Certamente que a bondade e misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida

Que conforto sentem as pessoas pecadoras, nas quais eu me incluo, quando leem palavras como estas na Bíblia. Bondade e Misericórdia são exatamente as duas coisas mais importantes para as pessoas que erram.

Há uma lógica interessante neste salmo, porque ele se inicia com Davi seguindo o pastor, e termina com a bondade e misericórdia deste pastor o seguindo.
Bondade e misericórdia nos seguem “todos os dias” porque precisamos delas todos os dias.

Observe ainda que “todos os dias” indicam também a constância de Deus e o seu estoque ilimitado de bondade e misericórdia. Se estas coisas nos seguem “todos os dias” é porque não se acabam.

E habitarei na casa do Senhor por longos dias

A última benção, como as anteriores, também é marcada por uma qualidade especial, que é a certeza de gozar de uma comunhão contínua na presença de Deus – “por longos dias”.

A dúvida aqui é sobre qual era a “casa do Senhor” que Davi tinha em mente. Em tempos remotos houvera um lugar de adoração em Siló chamado Casa do Senhor (1Sm 1.7,24; 3.15), e é provável que houvesse outros lugares assim em Israel, embora os relatos bíblicos sejam insuficientes para afirmarmos isso de forma conclusiva.

Há a hipótese também de Davi estar se referindo ao templo que ele intencionava construir.

No entanto, dentro de uma linha de raciocínio em que a caminhada passa pelo vale da sombra da morte, e depois há uma mesa preparada, também faz sentido que esta casa do Senhor seja interpretada como a habitação final do crente junto a Deus.

Davi em outras ocasiões fala de adorar a Deus em seu santuário, mas aqui ele afirma que irá habitar na casa do Senhor.

A expressão “por longos dias” pode ser perfeitamente traduzida por “para sempre” sem que se altere o sentido original, o que reforça ainda mais a ideia de uma eternidade com Deus.

Em outro salmo, Davi usando a palavra “tabernáculo” em paralelo ao “monte do Senhor”, o que traz a ideia de uma habitação celestial destinada aos justos. Não há a menor dúvida de que este é outro nome para a casa de Deus.

Quem, Senhor, habitará no teu tabernáculo?
Quem morará no teu santo monte?
(Sl 15.1)

Entretanto, precisamos lembrar que o foco deste verso não é tanto sobre o lugar da habitação, mas a pessoa com quem Davi deseja habitar – o Senhor.

Da mesma forma que Davi, o maior desejo do crente salvo é estar com Cristo, seja aqui ou na eternidade.

Em essência, é assim que este salmo descreve nosso relacionamento com Deus, como uma jornada contínua em Sua presença, e sendo Ele o autor de todas as bênçãos – por Ele somos guiados, supridos, protegidos e enfim levados ao Lar Eterno.


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