Disse-lhe mais: Certo homem tinha dois filhos.
O mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me toca.
Repartiu-lhes, pois, os seus haveres.
Poucos dias depois, o filho mais moço ajuntando tudo, partiu para um país distante, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente.
E, havendo ele dissipado tudo, houve naquela terra uma grande fome,
e começou a passar necessidades.
Então foi encontrar-se a um dos cidadãos daquele país,
o qual o mandou para os seus campos a apascentar porcos.
E desejava encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam;
e ninguém lhe dava nada.
Caindo, porém, em si, disse:
Quantos empregados de meu pai têm abundância de pão,
e eu aqui pereço de fome!
Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e dir-lhe-ei:
Pai, pequei contra o céu e diante de ti;
já não sou digno de ser chamado teu filho;
trata-me como um dos teus empregados.
Levantou-se, pois, e foi para seu pai.
(Lucas 15.11-20)
O "Filho Pródigo" é a parábola mais conhecida da Bíblia e completa a trilogia do assunto "perdidos e achados" do capítulo 15 de Lucas. Ela contém figuras dramáticas descritas de forma tão hábil, que, quando a lemos com espírito aberto, se torna impossível não se sentir tocado pela sua sublime mensagem.
Embora leve o nome de parábola do filho pródigo, ela, na verdade, conta a estória de três pessoas. Bem poderia ser chamada de parábola do "Pai e seus dois Filhos", pois cada um destes personagens possui um papel importante na narrativa.
Dentre as três parábolas de Lucas 15, esta é a que de forma mais completa faz a correspondência entre os personagens e os fatos que a antecederam. O filho caçula que saiu de casa e depois retornou representa os publicanos e pecadores; o amoroso pai que recebe graciosamente este filho representa Deus; e o amargo irmão mais velho - os escribas e fariseus.
Mas poderíamos estender o sentido para um pouco mais próximo da nossa realidade. O filho pródigo é todo pecador que, vivendo uma vida de pura ilusão, se encontra afastado de Deus; o pai continua representando Deus; enquanto o filho mais velho representa de forma perfeita o religioso que deseja obter o favor do pai, sem contudo amá-lo de coração.
* * *
Jesus nos diz que o filho mais novo pede ao pai sua parte na herança. Embora o pai não fosse obrigado a fazê-lo, ele a reparte entre seus dois filhos. Pelo costume da época, o primogênito receberia dois terços do total da herança, sendo que a terça parte restante seria dividida entre os demais herdeiros.
Dias depois aquele filho ajuntaria tudo o que tinha e iria para uma terra distante.
A situação é um tanto inusitada. Por que um pai faria isto, isto é, por que adiantaria a herança para o filho e o deixaria sair de casa sem ao menos tentar dissuadí-lo?
Acho que é porque o pai entendeu que o filho já estava distante dele em sua alma e em seus pensamentos. Ele ainda estava em casa, fisicamente próximo, mas sua mente estava muito longe. Tão longe quanto seus pés pudessem leva-lo - o que mais cedo ou mais tarde, invariavelmente, iria acontecer - e nada que o pai fizesse poderia detê-lo.
Esta parábola acrescenta, em relação as anteriores, o elemento volitivo para aquele que se perde. A ovelha se perdeu por ignorância, a moeda se perdeu por descuido, mas o filho pródigo se perdeu porque quis. Isto explica também porque, ao contrário do pastor e da mulher, que tiveram que procurar diligentemente pelos bens perdidos, o pai não mandou ninguém atrás do seu filho. É totalmente inútil tentar encontrar quem deseja continuar perdido.
Jesus nos diz que aquele filho foi para uma terra distante. Esta notável expressão - terra distante - descreve o lugar que muitos seres humanos se encontram em relação a Deus. Quão distante de Deus está todo aquele que se recusa a viver na dependência deste mesmo Deus, e resolve viver a vida do seu próprio jeito.
Nenhuma distância física - nem bilhões de anos luz - podem nos afastar deste Deus. Afastamo-nos dEle quando seguimos o nosso próprio caminho, e substituímos a vontade dEle pelo nosso ego.
Nesta terra distante o filho desperdiça seus bens vivendo dissolutamente.
Esta é uma forma interessante de descrever o pecado.
Entre outras coisas, o pecado é um desperdício de vida, onde tempo, talentos, relacionamentos sadios, famílias, e outras coisas preciosas são descartadas e jogadas no ralo, na busca por satisfação imediata.
Mas, Jesus prossegue, em um momento o dinheiro daquele moço se esgotou, e uma fome severa veio àquela terra.
Tão certo quanto o dinheiro mal usado se esgota, se esgota também a fonte de prazer para aquele que deseja viver em uma vida sem Deus. O pecado, em toda a sua sedução e magia, e, por assim dizer, depois de consumido, nada mais tem a oferecer ao ser humano, a não ser uma sensação de vazio e fome espiritual.
Exatamente neste ponto da estória começa aquilo para o qual aquele jovem não estava preparado: o outrora bem abastado filho de família enfrenta o revés da pobreza em uma terra estrangeira, terrivelmente castigada pela fome!
O moço então vai a um dos habitantes daquela terra, que o contrata para cuidar de porcos - algo impensável para um judeu! Esta parte da narrativa deve ter chocado aqueles que ouviam Jesus.
As coisas só pioram. Ele sente tanta fome que deseja se alimentar das alfarrobas (*) que eram dadas aos porcos, mas ninguém lhe dava nada. O moço tão precioso para o pai, valia menos que os porcos aos olhos dos habitantes daquela terra.
Ele havia chegado ao fundo do poço. Alguém que antes vivera como príncipe, tendo servos à sua disposição, e, o mais importante, amado por seu pai; agora vivia em um chiqueiro; desprezado, desvalorizado, vivendo numa condição sub-humana.
Não vamos perder de vista que originalmente esta imagem descrevia publicanos e pecadores, muitos dos quais eram ricos.
O homem sem Deus, por mais rico que ele seja, não passa de uma criatura miserávelmente pobre no sentido espiritual.
Jesus prossegue dizendo que o jovem finalmente cai em si e se lembra da casa do pai. Ele cai em si, ou volta para os sentidos, percebendo finalmente o quanto que estava enganado. Afastar-se de Deus é o mesmo que estar fora dos sentidos. É um tipo de alienação ou loucura, que leva o homem em direção à fome espiritual, degradação moral, e ao pior estado de miséria da alma.
"Quantos empregados de meu pai tem pão em abundância, e eu aqui, pereço de fome!" - sim, o menor de todos criados estava vivendo infinitamente melhor do que ele, o filho. Que absurdo!
"Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai", aquele jovem pensou consigo, "e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e contra ti" - Jesus estava descrevendo o que é o verdadeiro arrependimento.
Arrependimento é mudança de pensamento. A pessoa que se arrepende enxerga a sua verdadeira condição, e diz: "eu preciso voltar para Deus!"
O arrependimento implica ainda em reconhecer e confessar os seus erros. Veja como esta atitude está tão perfeitamente ilustrada na parábola, quando o jovem ensaia a sua confissão - "pequei contra o céu e contra ti".
Finalmente o arrependimento deve incluir uma ação de fato, que é a volta a Deus, exemplificada na parábola pela volta do jovem à casa paterna.
O jovem deve ter empreendido um longo retorno, já que ele se encontrava em uma terra distante.
Ele havia saído rico, mas estava regressando pobre.
Havia saído cheio de si, agora estava voltando humilhado.
Sabia que não merecia ser tratado como filho, e já havia pensado em pedir ao pai para recebê-lo como um servo.
(*) Alfarrobas são um tipo de vagem proveniente de uma planta nativa do mediterrâneo. São usadas para alimentar gado.
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